quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Introdução sobre o questionamento do livre-arbítrio.

De maneira geral, as pessoas assumem-se como livres, como donas de seu próprio destino, entretanto, parece que esquecem que existem causas para seus comportamentos que levam-nas a se comportar como o fazem. De maneira geral, algumas podem dizer que existem fatores que atuam em seus comportamentos, mas que apesar disso seriam livres para escolher se esses fatores terão ou não eficácia sobre elas. Ou podem dizer que podem resistir heroicamente a tais influência externas e também as internas (orgânicas).
As pessoas porém acreditam que há diferenças discerníveis entre o comportamento de povos asiáticos e africanos, entre brasileiros e argentinos, entre dois cachorros da mesma raça, entre homens e mulheres, e assim por diante. Podemos assumir que eles se comportam de forma diferente porque assim o escolheram, ou podemos dizer que se comportam dessa forma porque seus ambientes físicos tanto atuais como passados (incluindo história de vida de cada indivíduo), seus próprios corpos (fatores généticos, etc.) lhes estímula a isso.
A cultura evoluiu até um certo ponto com a perspectiva de que nosso comportamento observável e nossos pensamentos (que aqui chamarei de "comportamentos encobertos") não possuem relação causal com os eventos ambientais. É evidente que essa influência não foi a única dominante, e atualmente a maioria das pessoas admitiria que crê haver influência do ambiente. O que ocorre é que a crença do grau de influência que o meio ambiente tem sobre nós pode variar de cultura para cultura ou mesmo de pessoa para pessoa em uma determinada cultura.
Porém, se refletirmos um pouco mais sobre a questão perceberemos haver contradições dentro da concepção do livre-arbitrio.
Grande parte da população admite que um criminoso é responsável por seus atos e livre para agir como o faz, mas também assumem que os crimes podem ser influenciados por nosssa história de vida (carência de educação familiar e escolar, violência sofrida na infância, etc.), ou mesmo por fatores emocionais e ambientais mais recentes, como é parte do que ocorre nos chamados crimes passionais. Em situações como essa temos problema para definir o livre arbitrio, pois assumimos que o sujeito foi determinado pelos fatores do ambiente, mas também é responsável pelo ato. Essa concepção de liberdade individual existe no direito pois é de extrema utilidade social. Sem tal conceito, o estado de direito sofre um abalo em sua estrutura, e as consequências dessa concepção em um primeiro momento, se mal expressadas poderiam ser bastante complexas, seja para aqueles que estão no topo dessa estrutura, como para a própria população, que até certo ponto se beneficia de sua atuação; afinal de contas, se admitimos que um assassino é determinado por diversos fatores, sejam eles genéticos ou culturais, surge uma dificil questão, o que fazer com ele? Responsabilizar o sujeito pelo comportamento que emite não soluciona o problema do livre-arbitrio, mas gera um curso de aão satisfatório para o grupo.
Manter-nos nessa ilusão, porém, não nos leva a respostas concretas a cerca das causas do comportamento humano.
Temos a impressão de que somos livres ou que nossos pensamentos determinam a priori o comportamento encoberto e observável que emitimos, pois é mais fácil encontrar relação entre um comportamento observável e um evento encoberto, como por exemplo, as emoções, porque ela ocorre pouco antes da emissão do comportamento observável. O fato é que mesmo as emoções são estados do organismo, como as respostas fisiológicas (ex.: sudorese, taquicardia, etc.), somado a respostas no sistema nervoso, que são condicionadas em uma interação com o meio ambiente. Logo, um indivíduo com transtorno do pânico que terá reações "emocionais" variadas, pode ter seu ataque desencadeado por inúmeras variáveis ambientais, devido a um aprendizado por condicionamento respondente e operante. Essas variáveis determinarão o desencadear do ataque, sua intensidade, etc. Porém, até certo ponto poderiamos controlar o ataque, ou poderemos buscar tratamento médico e psicológico para ele. Isso muitas vezes nos da a noção de livre-arbitrio, em que afirmamos coisas como "posso não controlar muito bem o ataque, mas posso escolher tratá-lo, por isso sou livre". Na verdade isso não acaba com o problema da determinação do comportamento, pois se buscamos tratamento para o ataque de pânico, o faremos porque diversos fatores ambientais, como p. ex. o próprio grupo social, pode ter nos insentivado a fazê-lo, direta (através de nossa experiência passada) ou indiretamente (observando outras pessoas fazendo tratamento, ou ouvindo falar que outros buscaram tratamento, etc).
Se acreditassemos que temos plenas escolhas sobre nosso destino sem qualquer influência ambiental, não colocariamos nossos filhos nas escolas, não investiriamos em saúde mental, não tentariamos controlar o comportamento das pessoas mediante o sistema prisional, etc. Para que investir em educação e ensino de ética e cidadânia se podemos escolher pelo "bem" ou "mal" (ou seria melhor dizer: pelo comportamento socialmente aceito ou não aceito) sem influência do meio onde vivo? Tal afirmação soa ridicula, mesmo para aqueles que creem na liberdade do comportamento humano.
Se tivessemos escolhas livres, porque escolher se comportar de forma tipicamente avaliada como maldosa? Ou porque escolher ser homossexual, já que o sujeito estaria exposto ao precocneito social? A resposta é mais simples, não temos controle sobre todas as variáveis que nos determinam, e quando finalmente somos capazes de controlar o ambiente, só o fazemos porque também estamos sendo determinados a fazê-lo. Confuso? Inicialmente sim; novos posts esclarecerão melhor a questão elucidando melhor como a interação organismo-ambiente é capaz de prover comportamentos complexos, como o próprio "autocontrole", a "criatividade", a "violência", entre outros.

Esse post é um questionamento feito sem qualquer refinamento, a fim de tratar dos problemas relativos ao comportamento humano sob uma perspectiva científica, mais precisamente, na perspectiva do Behaviorismo Radical. Em posts posteriores discutirei questões como o condicionamento respondente e operante e filosofias comportamentalistas, a afim de elucidar a questão da determinação do comportamento humano.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Caso 1 - Decisão sobre aborto

SIMULAÇÃO DE ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO

Janaina chegou ao consultório para tomar a decisão de realizar ou não um aborto. O psicólogo que realiza o aconselhamento é do sexo masculino e seu referencial é a teoria psicodinâmica. Ele reconhece que há geralmente uma questão ética envolvida na decisão de um aborto, mas a paciente, porém, não aparentou relevar tal questão. Tornou-se necessário, portanto, que o profissional introduzisse o assunto, não por fazerem parte de seus valores pessoais, mas para realmente constatar se a paciente não estava isolando o afeto em relação a tal decisão, o que poderia levá-la a sentir-se culpada posteriormente.
A paciente parecia muito despreocupada para quem esta quase tomando a decisão sobre um aborto. O psicólogo percebe é que Janaina já chega com uma decisão praticamente tomada e insiste e sutilmente induz o profissional a dar sua aprovação pessoal, de modo a permitir tal decisão. Ao longo da sessão fica claro que Janaina é uma pessoa emocionalmente instável e que teme intensamente a rejeição.
Depois de alguns minutos de conversa sobre a paciente e sua tomada de decisão a respeito do aborto, chegou-se ao momento da consulta em que o terapeuta consegue “romper com as defesas” da paciente (ver abaixo). Percebendo que a paciente se encontra em dúvida, o terapeuta utiliza-se de uma estratégia predominantemente interpretativa, para que ela repense a decisão do aborto. Como a paciente respondeu bem ao uso dessa abordagem, o terapeuta não necessitou utilizar de “persuasão” de forma diretiva.

JANAINA: Na verdade o aborto ficou marcado pra depois de amanhã...
JANAINA: Mal posso esperar para adiar a gravidez por um tempo... Daqui há umas semanas começo cursinho. Vou tentar facul de Administração.
TERAPEUTA: É interessante que você tenha usado a expressão “adiar”. Você disse “adiar por um tempo”...
JANAINA: Humm... (segue-se um período de silêncio; a paciente fica com uma expressão séria)
JANAINA: Você acha que isso significa alguma coisa?
JANAINA: (A paciente segue em silêncio).
TERAPEUTA: Janaina, adiar significa “deixar para depois”. Sim, você poderia adiar uma gravidez se partissemos do pressuposto de que você estivesse planejando engravidar. Mas você acha que abortar uma gravidez significa “adiar por um tempo”?
JANAINA: Você acha que significa mais alguma coisa?
TERAPEUTA: Na verdade é uma decisão importante que você esta refletindo. O que você acha que isso significa?
JANAINA: Não sei... Na verdade, acho que não.
JANAINA: Eu não sei, você esta me deixando confusa.
JANAINA: Se eu não fizer isso vou atrasar minha vida, vou perder o Cesar, meu namorado, eu não sei se ele aceitaria.
TERAPEUTA: Humm, são questões importantes a serem avaliadas. Então, uma das razões pela qual você reflete a possibilidade de um aborto é seu namorado...
TERAPEUTA: Me fale um pouco sobre ele, seu namorado. Vocês já conversaram sobre isso?
JANAINA: Hummm... não...
JANAINA: Mas estou com medo...
TERAPEUTA: De falar com ele a respeito?
JANAINA: Eu não sei se ele aceitaria... Ele tem tantos planos. E um filho agora, eu fico com medo de que ele possa se irritar e achar que eu planejei isso sabe...
JANAINA: Meu pai, que na verdade era meu padrasto, já que eu não conheci meu pai biológico, teve essa reação com minha mãe quando ela engravidou pela segunda vez...
TERAPEUTA: E ela realizou o aborto?
JANAINA: Sim.
TERAPEUTA: Como exatamente você acha que seu namorado poderia reagir?
JANAINA: Eu realmente não sei.
TERAPEUTA: Seu namorado já se mostrou intolerante com você em alguma ocasião?
JANAINA: Na verdade, ele é bastante tolerante... Ele nunca me levantou a voz...
TERAPEUTA: Você disse que ele tem muitos planos para o futuro. E pelo que me disse ainda não haviam discutido sobre gravidez. Apesar disso você estão juntos a bastante tempo, como um casal... E você sempre fala sobre a opinião dele... mas pelo que você me disse, não sabemos exatamente qual é essa opinião...
TERAPEUTA: Você acha que ele gostaria de participar dessa decisão?
JANAINA: Eu não sei. Ele sempre me ouviu muito...
JANAINA: É, acho que to errando em fazer isso sem ele saber... o filho também é dele... Eu antes sempre pensava que era errado abortar... Quando a mãe me falava que fez isso por causa do meu pai, me dava enjoo sabe...
JANAINA: Me sinto aliviada de ter conversado disso com você... Mas o que você acha que eu deva fazer agora?
TERAPEUTA: O único meio de saber a reação de seu namorado e o que ele pensa sobre essa decisão, seria contando a ele sobre a gravidez. O que você pensa sobre o que estou dizendo?
JANAINA: Não sei, tenho medo sabe. Talvez se eu te... (paciente interrompe sua sua fala)
TERAPEUTA: Você se refere a fazer uma tentativa de contar a ele?
JANAINA: Talvez eu devesse.
JANAINA: Por que você acha que eu to excluindo ele?
JANAINA: Eu devo ter sido mesmo uma pessoa horrível.
TERAPEUTA: Não acho que você seja uma pessoa horrível.
JANAINA: Mas porque eu fui por esse rumo?
TERAPEUTA: Conversamos muito pouco para que possamos ter absoluta certeza. Mas pelo que você me disse, o aborto de sua mãe a abalou bastante.
JANAINA: Uhum...
TERAPEUTA: Essa situação pode, ao menos em parte, explicar alguns de seus sentimentos sobre a gravidez e sobre seu namorado.
TERAPEUTA: Você percebe uma relação entre esses dois eventos: entre o aborto de sua mãe e a sua intenção de realizar um aborto?
JANAINA: Na verdade eu nunca tinha visto por esse lado... mas faz sentido sim. Eu andei sonhando muito com isso, com o aborto da mãe e lembrando muito daquilo.
TERAPEUTA: Talvez no fundo, haja uma impressão de que o Cesar, seu namorado, poderia reagir como seu pai reagiu com sua mãe. Nesse caso, fazer um aborto seria uma forma de realizar a suposta vontade dele sem que ele se quer demonstrasse raiva com você... É como se você estivesse antecipando o que inicialmente pensou que seria a reação dele.
TERAPEUTA: Isso faz algum sentido pra você?
JANAINA: Isso me assusta um pouco. Lembro muito do meu pai fazendo isso com a mãe... (paciente faz leve expressão de choro).
JANAINA: Acho que errei em não contar pra ele, to me sentindo péssima.
JANAINA: Mas você também é homem. Seja sincero. Você acha que ele (Cesar) também vai me forçar?
TERAPEUTA: As pessoas são diferentes Janaina. Seu namorado pode não ter necessariamente a mesma opinião que seu pai. Como eu disse, só há um meio de descobrir.
JANAINA: Sim, então eu vou contar pra ele.
TERAPEUTA: Então, sobre a cirurgia (aborto) que esta marcada... (nesse momento o terapeuta é interrompido por Janaina)
JANAINA: Já decidi, vou cancelar! (fala em tom elevado)
TERAPEUTA: Você se sente capaz de conversar a respeito disso com seu namorado?
JANAINA: Acho que posso tentar.
TERAPEUTA: Uhum. Façamos assim. Como você disse, desmarque o procedimento e tente conversar com ele e marcaremos uma consulta para conversarmos sobre o que aconteceu. Esta bem assim pra você?
JANAINA: Sim. Me deseje sorte...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Psicoterapia Psicodinâmica tem ou não tem eficácia?


Estava lendo um artigo denomidado A Eficácia da Psicoterapia Psicodinâmica publicado recentemente por Jonathan Shelder, pesquisador e "amante" da teoria psicodinâmica. Abaixo, minha reflexão.

De acordo com o autor há a crença disseminada entre os profissionais, acadêmicos, e em muitos leigos, de que os conceitos e tratamento psicodinâmicos carecem de apoio empirico ou que inumeras evidências científicas demonstram que outras formas de tratamento são mais efetivas. No entanto, tais afirmativas não são verídicas.
Diversos estudos de meta-análise sobre as terapias psicodinâmicas demonstram sua eficácia no tratamento de diversos transtornos mentais. Segundo os estudos citados no artigo, a abordagem psicodinâmica demonstrou grande efetividade em praticamente todos os transtornos avaliados nesses estudos: transtornos somáticos, transtornos de personalidade (como o Transtorno de Personalidade Borderline, entre outros. Nem todos os estudos comparavam a efetividade do modelo psicodinâmico com o modelo cognitivo-comportamental, mas os estudos que faziam tal comparação demonstraram uma maior efetividade no primeiro modelo (lembrando que ambos se mostraram efetivos). Uma hipótese seria a de que a cognição não é o elemento mais determinante de mudança nas psicoterapias, mas sim os elementos afetivos, com os quais a abordagem psicodinâmica supostamente trabalha de forma mais enfática. É preciso, também, lembrar que tais estudos não conseguem afirmar exatamente quais técnicas estão sendo mais efetivas para tais mudanças e o próprio autor aborda o fato de que tais dados não necessariamente corroboram as teorias ou modelo de tratamento psicanalíticos. Do mesmo modo que estudos sobre a efetividade das terapias cognitivas não possam afirmar precisamente se seus beneficios se devem as mudanças cognitivas almejadas pelos terapeutas. Há a hipótese de que existiriam os "universais" das psicoterapias - as técnicas que provavelmente são utilizadas em todos os modelos psicoterápicos. Um exemplo seria a "escuta empática" (segundo o modelo cognitivo), chamada de "audiência não punitiva" na teoria comportamental do Skinner, que afirmava que não punir o paciente permite que ele execute comportamentos (principalmente verbais) que a sociedade condena (pune), evitando assim o comportamento de "esquiva" e possibilitando reduzir, ou mesmo extinguir completamente determinados comportamentos (respostas), algo que Freud provavelmente percebia há muito tempo, embora tenha fornecido suas próprias interpretações.
Uma última questão a se avaliar, é que tais estudos não focam na eficácia de técnicas específicas das psicoterapias psicodinâmicas e nem na psicoterapia aplicada em indivíduos diagnósticados com transtornos específicos, o que nos forneceria mais dados para termos uma ideia mais clara sobre o que pode haver de efetivo dentro das técnicas utilizadas e em quais transtornos se mostram mais efetivos (algo que sem os estudos só podemos hipotetizar). Bem, provavelmente há mais artigos que tratam do assunto, inclusive sobre a efetividade da TCC, mas isso fica pra outro momento.

Seguem-se algumas informações retiradas do artigo.

As características que distinguem a terapia psicodinâmica de outras formas de terapia são:

1. Foco no afeto e expressão das emoções
2. Exploração de tentativas de evidar pensamentos e sentimentos angustiantes
3. Identificação de temas e padrões recorrentes
4. Discussão de experiência passada
5. Foco nas relações interpessoais
6. Foco no relacionamento terapêutico
7. Exploração das fantasias

A primeira grande meta-análise de estudos sobre os resultados de psicoterapia incluiu 475 estudos e resultou em uma magnitude de efeito global (vários diagnósticos e tratamentos) de 0.85 para pacientes que receberam psicoterapia comparados com controles não tratados.
A influente revisão de Lipsey e Wilson tabulou resultados para 18 meta-análises relativas aos resultados de psicoterapia geral, que tinham uma média de magnitude de efeito de 0.75. Ele também tabulou resultados de 23 meta-análises relativas aos resultados da TCC e modificação comportamental, que teve uma magnitude de efeito médio de 0.62. Uma meta-análise de Robinson, Berman, e Neimeyer (1990) resumiu os achados de 37 estudos de psicoterapia preocupados especialmente com os resultados no tratamento da depressão, que tinham uma magnitude de efeito global de 0.73. Estes são efeitos relativamente grandes.
A Cochrane Library publicou um estudo metodologicamente rigoroso de psicoterapia psicodinâmica, que incluiu 23 ensaios clínicos randomizados de 1431 pacientes. O estudo comparou pacientes com uma série de desordens mentais comuns que receberam terapia psicodinâmica de curto-prazo (<> 9 meses após o tratamento). Além das mudanças nos sintomas gerais, a meta-análise relatou uma magnitude de efeito de 0.81 para mudança em sintomas somáticos, que aumentaram para 2.21 em um acompanhamento de longo-prazo; um magnitude de efeito de 1.08 para mudança em avaliações de ansiedade, que aumentaram para 1.35 no acompanhamento; e uma magnitude de efeito de 0.59 para mudança em sintomas depressivos, que aumentaram para 0.98 no acompanhamento. A consistente tendência para tamanhos de efeito maiores no follow-up sugere que a terapia psicodinâmica põe em movimento os processos psicológicos que levam à mudança em curso, mesmo depois do término do tratamento. Uma meta-análise relatada no American Journal of Psychiatry examinou a eficácia da terapia psicodinâmica (14 estudos) e da TCC (11 estudos) para transtornos de personalidade. A meta-análise relatou tamanho de efeito do pré-tratamento ao pós-tratamento usando o follow-up mais longo disponível. Para a terapia psicodinâmica (tempo médio de tratamento foi de 37 semanas), o período médio de acompanhamento foi de 1.5 anos e a magnitude de efeito do pré-tratamento ao pós-tratamento foi de 1.46. Para a TCC (tempo médio de tratamento foi 16 semanas), o período médio de acompanhamento foi de 13 semanas e o tamanho do efeito foi 1.0. Os autores concluíram que ambos os tratamentos demonstraram efetividade. Uma mais recente revisão da terapia psicodinâmica de curto-prazo (média de 30.7 sessões) para transtornos de personalidade incluiu dados de sete ensaios clínicos randomizados. O estudo avaliou o resultado do mais longo período de acompanhemento (uma média de 18.9 meses pós-tratamento) e relatou uma magnitude de efeito de 0.91 para melhora dos sintomas gerais (N = 7 estudos) e 0.97 para a melhora no funcionamento interpessoal (N = 4 estudos). Os achados relativos aos transtornos da personalidade são particularmente intrigantes. Um recente estudo de pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline não só demonstrou os beneficios do tratamento que igualou ou excedeu aqueles de outros tratamentos baseados em evidências, como terapia comportamental dialética (Linehan, 1993), mas também mostrou mudanças no mecanismos psicológicos subjacentes (processos intrapsíquicos) que se acredita medeiam a mudança dos sintomas nos pacientes borderlines (especificamente, mudanças na função reflexiva e organização da vinculação; Levy et al., 2006). Essas mudanças ocorrem nos pacientes que receberam psicoterapia psicodinâmica, mas não nos pacientes que receberam terapia comportamental dialética.


NOTA SOBRE A METODOLOGIA DE ESTUDO

A meta-análise é um método vastamente aceito de resumir e sintetizar os resultados de estudos independentes. A meta-análise torna os resultados de diferentes estudos comparáveis convertendo os resultados em uma métrica comum, permitindo que os resultados sejam agregados ou agrupados através de estudos. Uma métrica amplamente utilizada é a "magnitude de efeito", que é a diferença entre o grupo controle e o grupo de tratamento, expressada em unidades de desvio padrão. Uma magnitude de efeito de 1.0 significa que a média de pacientes tratados é um desvio padrão mais saudável que na distribuição normal ou "curva de bell" do que a média de pacientes não tratados. Em pesquisas médicas e psicológicas, uma magnitude de efeito de 0.8 é considerada um grande efeito, uma magnitude de efeito de 0.5 é considerada um efeito moderado, e uma magnitude de efeito de 0.2 é considerada um efeito pequeno.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Hipnose


A hipnose é uma prática muito antiga, pregressa a quais quer relatos escritos. Em diversas culturas humanas houve métodos de indução hipnótica. Povos de todo o mundo o utilizaram por meio de cânticos, mantras, sons rítmicos de tambores, em práticas de meditação, Yôga, artes marciais e para finalidades ritualísticas religiosas e de cura. A hipnose moderna começa em 1773, com Franz Mesmer, um médico que acreditava obter curas por meio de magnetismo animal. Mais tarde foi questionado por uma comissão de intelectuais da época, sendo denunciado por fraude. A partir daí começaram pesquisas de maior significância sobre o fenômeno que seria posteriormente utilizado por psiquiatras e psicanalistas, como Charcot, Breuer e Freud.
Imagine a si mesmo dirigindo um carro em uma estrada. Você fixa a atenção nas faixas, enquanto passam monótona e gradativamente, aos poucos ficando sonolento. O som do rádio toca ao fundo uma música suave e relaxante. Você sem se dar conta pode estar aos poucos entrando em um estado de maior receptividade a sugestões.
Provavelmente todos nós já passamos pelo processo de indução hipnótica, de forma mais ou menos aprofundada. Portanto, não constitui um acontecimento raro ou anormal. O operador (termo de Erickson para hipnotizador) pode fazer sugestões pós-hipnóticas, em que dá ao hipnotizado determinada mensagem ou ordem. Por exemplo, lhe diz que sempre que observar determinado objeto sentirá um sabor de algo doce na boca. Pode sugerir a ele ter menor estresse e sugerir-lhe também mecanismos para lidar com este.
Antes de discorrer mais a fundo sobre a hipnose, é importante fixar-se, em outro fenômeno que é fundamental dentro dela, a consciência. Esta permanece sendo um tema controverso, alvo de estudos de diversos pesquisadores. Para o filósofo da mente, John Searle o conceito é simples, sendo um fenômeno biológico natural, em suas palavras: “Consciência se refere àqueles estados de sensibilidade e ciência que começam normalmente quando acordamos de um sono sem sonho e continua até que durmamos novamente, caímos em coma, morremos ou ficamos inconscientes”. O próprio Searle complementa nos dizendo que: “A consciência (...) é um fenômeno interno de primeira pessoa”.
A consciência de seres humanos, tais como a de outras espécies de animais, tais como pássaros, mamíferos, entre outras, esta condicionada a estruturas neurônicas complexas (SHIMIDT et al, 1979, p. 329). Para o homem a consciência é, pois, indispensável para o adequado processo de adaptação deste ao seu meio ambiente. William James, nos primórdios dos estudos da Psicologia enquanto ciência independente, já nos falava, de seu potencial de garantir ao homem, tal como afirma Shimidt, fixar-se em diferentes estímulos e aprender coisas novas, consumando assim o já mencionado processo adaptativo.
Importante atributo da consciência e ferramenta da hipnose é a atenção. O hipnotizado deverá focá-la em um determinado aspecto de sua imensa gama de experiências internas ou estímulo ambiental externo. No caso da hipnose a voz do hipnotizador é um dos estímulos. Tomando o exemplo de Myers, em seu livro “Introdução à Psicologia”, tente imaginar-se dirigindo um carro pela primeira vez. Obviamente despenderemos grandes esforços a fim de coordenarmos e memorizarmos toda uma seqüência de movimentos. Pisar no acelerador com a pressão adequada, manusearmos o volante, e o câmbio e ainda mantermos a atenção no espelho retrovisor e velocímetro. Até que de esta atividade, de tanto realizada, termine por se automatizar exigir menos demanda de nossa consciência. Dirigir um carro torna-se então, uma tarefa simples. As de mais atividades de nosso cotidiano, com as quais não possuímos experiência prévia não ocorrem muito diferente, como podemos constatar por meio da experiência.
Segundo Myers e Davidoff, ao longo de nossa vida experienciamos, o que se chamam, diferentes estados de consciência. Como exemplo, temos o sono e dentro destes subfases (estágios), tais como o sono NREM (Non Rapid Eyes Moviment), os estágios 1, 2, 3, 4 e o sono REM. Se considerarmos a consciência como um conjunto de capacidades produzidas pelo cérebro humano, tais como atenção, pensamento, entre outras, poderíamos afirmar a hipnose como sendo um estado alterado.
É possível produzir, por meio de sugestão, alucinações no hipnotizado. Tal efeito sugere alterações em elementos que provavelmente caracterizam a consciência. A hipnose poderia ser também um estado de consciência dissociada, como acreditam muitos pesquisadores.
Funções cognitivas associadas com os lobos frontais do cérebro, podem estar especificamente envolvidos na hipnose. A área frontal tem, no entanto, sido de grande interesse quando se pesquisa por mudanças neurais associadas com a hipnose. Foi especificado em estudo experimental de caso com um indivíduo considerado altamente hipnotizável, um “virtuoso”. Este foi submetido à hipnose e, utilizando-se do eletroencefalograma (EEG), demonstrou-se que a hipnose induz reorganização na composição de oscilações cerebrais especificamente in no córtex pré-frontal e lobo e hemisférios direito do lobo occiptal.
A hipnose ficou caracterizada por uma significativa assimetria do hemisfério direito dominante. Os padrões EEG gerais observados durante a hipnose não retornaram aos níveis EEG base registrados.
Os resultados da EEG, refletida na ativação neural e cognitiva também demonstram que, de fato, há um acréscimo no alerta e atenção na hipnose. Cabe, porém, lembrar que este é um estudo de caso.
Muitos teóricos, no entanto, conceituam a hipnose como uma extensão de capacidades normais do ser humano. Este proveniente de uma extraordinária influência social sobre os indivíduos.
Indivíduos não hipnotizados são capazes de realizar muitas das ações que indivíduos hipnotizados demonstram-se capazes de fazer. Tal como, o exemplo da "fantástica ‘prancha humana", em que um homem enrijece seu corpo, ficando deitado ereto somente com os ombros e cabeça sobre uma cadeira e a extremidade inferior das pernas sobre outra. Da mesma forma muitos afirmam que, por meio da hipnose, é possível fazer com que um indivíduo realize ações perigosas, para si e para os demais. Porém, estudos envolvendo influência social revelam que pessoas não hipnotizadas também podem.
Experimentos e teorias provenientes das pesquisas em Psicologia Social, como a teoria da Inércia Social de Bibb Latané, o estudo da conformidade e aprovação social de Asch e o experimento a respeito de figuras de autoridade de Milgram, revelam a influência da sociedade e do hipnotizador em nossas ações e julgamentos. No exemplo de Milgram, os indivíduos despojam-se de sua responsabilidade ao receberem ordens de “superiores”, julgando que a responsabilidade por seus atos, deixa de ser suas.
Como nos mostram tais estudos, representamos ou introjetamos em nosso dia-a-dia diversos papéis sociais, sejam eles familiaresm profissionais, entre outros. Papéis que nos afirmarão uma identidade e permitirão nossa adaptação ao meio social, trazendo-nos satisfação.
Diariamente forjamos também, expectativas quanto aos eventos, o que influirá em nossas reações ao nos depararmos com eventos semelhantes. Um voluntário à hipnose pode, pois, gerar uma expectativa quanto à experiência e voluntarizar-se a se comportar da forma que acha que um hipnotizado deva se comportar, ou seja, incorporar o papel que lhe foi dado. Prontificando-se a participar de uma sessão de hipnose com uma platéia observando, o indivíduo pode, portanto, ver-se pressionado a desempenhar tal papel com sucesso. É possível que tal expectativa produza igualmente uma forte inclinação às ordens do hipnotizador. Somado aos fatores sociais, hipnotizadores utilizam-se também de fatores fisiológicos. Qualquer um, se colocado em um ambiente calmo e confortável, tenderá a sentir-se mais relaxado e sonolento. Se mantivermos os olhos abertos olhando para cima os sentiremos cansarem. Da mesma forma é fato conhecido, hipnotizadores usarem técnicas de indução ao transe. Pede-se, por exemplo, para que os voluntários ao processo cruzem os dedos das mãos com força em determinadas posições e sugerir-lhes que estas se tornem mais difíceis de serem separadas por vontade consciente. Realmente, as mãos “atadas” em certas posições podem se tornar difíceis de separar, porém não impossível. Tais fatos, somados a sugestão do hipnotizador podem produzir fortes resultados, tornando os candidatos à hipnose mais receptivos as sugestões.

Referências

ALEXANDER A. FINGELKURTS et. al., Hypnosis Induces A Changed Composition of Brain Oscillations in EEG: A Case Study.

ARONSON, Elliot, Psicologia Social, 3ª ed., Ed. LTC, 2002, RJ.

DAVIDOFF, Linda, Introdução a Psicologia, 3ª ed., 2004, SP.

ERICKSON, Milton, Hipnose médica e odontológica, ed. Editorial Psy, 1994, SP.

MYERS, David, Psicologia, Ed. LTC, 2006, RJ.

SCHIMIDT, R. F., Neurofisiologia, editora E.P.U, 1979, SP.

SEARLE, John R., O mistério da consciência, editora Paz e Terra, 1998, SP.

KANTOWITZ, Barry H., Psicologia Experimental, Ed. 8ª, ed. Thompson, 2006, SP.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Atuação e personalidade


Leia e reflita.





Digamos
que você participe de um grupo de teatro. Você e seu grupo decidem fazer uma brincadeira, que consiste em durante o período de uma semana interpretar uma personagem no seu dia-a-dia para ver as reações das pessoas às personagens criadas, bem como treinar suas capacidades de atuação, afinal, não haveria treino melhor do que na própria realidade, enganando as pessoas no dia-a-dia. A interpretação tem ínicio, e vai muito bem, a cada dia você adquiri cada vez mais facilidade para agir como o personagem fazendo-o de forma cada vez mais automática, sem ser tanto você mesmo ao ter alguma falha na atuação. No terceiro dia de atuação, você, ou talvez seja melhor dizer, o personagem que você interpreta, conhece uma menina enquanto anda de ônibus e acaba por gostar realmente dela e ela de você. Vocês trocam números de telefone e passam a se encontrar ao longo da semana. Porém, você fica inseguro de perder sua afeição ao admitir que aquele que ela conheceu é na verdade uma personagem, uma interpretação sua, e que na realidade sua verdadeira personalidade, gostos, e maneirismos são no entanto significativamente diferentes, seu temor no entanto não reside na mentira, mas sente-se angustiado pois sabe que ela se apaixonou por um personagem e não por aquilo que você costuma ser. Você termina por seguir com a farsa. Um tempo depois ela acaba por descobrir, por meio de um amigo que você mentiu o tempo todo e termina com você, você tenta convencê-la a voltar atrás e revela-lhe sua personalidade verdadeira, porém ela não só não sente qualquer atração por ela, como também não estaria de qualquer forma disposta a perdoá-lo pelo que você fez.

- As questões que quero tratar com essa estórinha inventada são:

. Seria o personagem que você interpretou durante todo esse tempo e que ganhou o amor da menina, você?

. Por que a menina se irritaria também com a questão da mentira?

. Pressupomos que aquilo que você interpretou seja de certa forma você, ao menos você utilizou de conhecimentos que dispunha para promover tal atuação, então não seria por você que a menina se apaixonou?

. Há grande diferença entre aquilo que você é e aquilo que você conhece, sabe e usa para promover uma interpretação?

. E se o personagem for interpretado durante tanto tempo que chegue a se tornar um comportamento praticamente automático, uma vez que é executado inumeras vezes, então passaria a ser "natural" do sujeito?
Conclusão:

Obviamente o proposto experimento mental não apresenta uma resposta única e totalmente objetiva, porém serve para exercitar o raciocinio e nos mostrar certas verdades a que estamos habituados e que muitas vezes negamos ou nos passam simplesmente desapercebidas.
Não é verdade que nós no nosso dia-a-dia interpretamos papéis? Fingimos ser educados quando não temos vontade por que isso nos é incentivado, quando não obviamente imposto sobre nós e que ocorre devido à diversas normas sociais...O marido por exemplo diz para a esposa que a calça Jeans que ela usa cabe-lhe perfeitamente no corpo, enquanto na verdade ela esta acima do peso ou dizemos que a comida da sogra esta saborosa quando de fato não sentimos que esteja. Com o caso da atuação é diferente, mas não tanto quanto imaginamos, de fato se observarmos perceberemos o quão artificiais seriam muitos de nossos comportamentos, sendo que por mais estranho que seja é muito do que nos define como seres humanos. Quantas vezes não executamos ações que a príncipio não nos eram naturais, e nem consideradas comuns e com o tempo depois de certo treino tornaram-se automáticas e tomadas por nós como verdades. Já vi muitas crianças se questionarem quanto a certas crenças ou sentido de certos acontecimentos, como por exemplo, a existência de Deus, por que as crianças não devem fumar sendo que muitas vezes seus próprios pais fumam, ou por que tem que ir pra escola desde pequenas. Geralmente elas receberam uma brilhante resposta de seus pais que serve para responder à todas as questões: "Porque sim". Será mesmo que isso é uma boa resposta? O que eu sei é que de fato evita ser encomodado e dá um fim na conversa!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A inércia social e a difusão de responsabilidade


Uma observação usual que muitos de nós fizemos, é a de que pessoas trabalhando em um grupo costumam não se esforçar o suficiente, muitas vezes deixando que os outros façam o trabalho. Provavelmente já tivemos essa impressão em relação aos de mais ou mesmo conosco. Pois justamente a cerca disso um psicólogo social, chamada Bibb Latané, ao pesquisar a literatura a cerca desse fenomêno já então estudado desenvolveu uma teoria a respeito dessa observação e a chamou de inércia social. Um dos primeiros estudos a respeito dessa teoria foi realizada por um engenheiro agrônomo francês (Ringelmann, 1913). Na tentativa de verificar se este suposto fenômeno constituia uma verdade, ele elaborou um experimento que consistia em medir a força com que os participantes puxavam uma corda, por meio de medidores sensíveis à pressão nela colocados, primeiramente sozinhos, posteriormente em grupo. Se os participantes despendessem a mesma força tanto sozinhos como em grupo, então o desempenho grupal seria a soma dos esforços conjuntos dos participantes. No primeiro caso o participante utilizava uma força X que será tomada aqui como uma porcentagem de 100 (100%). Posteriormente foram colocados dois participantes a puxar a corda, como esperado a força despendida pelos participantes decaiu de 100% para cerca de 95%, em seguida foram utilizados na medição grupos de 3 e 8 pessoas, a força despendida na tarefa decaiu para 85% e 49%, respectivamente.
O resultado é interessante e comprova a hipótese levantada, a de que quando atuamos em grupo dividimos a responsabilidade da ação com os de mais membros do grupo, diminuindo assim o esforço realizado, como já nos sugere próprio nome do experimento.
Essa pesquisa interessou principalmente à instituições, em geral empresas, que necessitavam lidar com tal fenômeno e intencionavam aumentar o índice de produção dos empregados. Para isso uma possível solução seria uma avaliação individual dentro do contexto grupal no qual os trabalhadores operam, anulando assim o efeito da Inércia Social.
Latané prosseguiu executando uma série de experimentos concernentes à inércia social junto de seus colaboradores. O fenômeno de fato foi constatado por meio de outros experimentos que não só o de puxar a corda, mostrando-se presente em diversas culturas, sendo caracteristico não só em adultos, como também em crianças.

Os índicios desses estudos apontam para a teoria da difusão de responsabilidade, como uma possível razão para o fenômeno. As pessoas que trabalham sozinhas julgam-se responsáveis por terminar determinada tarefa, porém quando trabalham em grupo, esse senso de responsábilidade difunde-se para os de mais. O mesmo ocorre, por exemplo, se um professor nos faz uma pergunta em sala de aula, e nela há somente dois alunos presentes, de fato nos sentiriamos fortemente responsáveis por responder a questão, mas caso houvesse mais 40 ou 50 alunos na sala a situação seria diferente, nos sentiriamos menos responsáveis por dar uma resposta. De forma semelhante em uma situação de emergência, em que alguêm, por exemplo, sofra um acidente e precise de ajuda, sentiriamos o peso da responsabilidade sobre nós, o que nos orna mais propensos a tomar uma atitude, muito mais do que se houvesse outras pessoas que poderiam ajudar o ferido. Isso revela que a disposição das pessoas em ajudar em uma crise encontra-se inversamente relacionada ao número de outras pessoas presentes.





terça-feira, 15 de abril de 2008

Resumo de Filosofia

Ai vão algumas coisas que achei relevantes no texto “Filosofia: elucidações conceituais”. (Cap.4) relacionadas também a algumas de outras leituras.
Estudem também pelos textos, pois estes são apenas alguns pontos que considerei importantes para facilitar a retenção de informações na memória, o que não exclui de forma alguma os de mais dados propiciados pelos textos fornecidos pelo Prof. Ériko.

Filosofia:

Forma racional de compreensão do mundo, homem, realidade, etc. É uma forma crítica de ver o sentido e significado do mundo e das coisas e que direciona a vida dos indivíduos e do coletivo. Relaciona-se a nossa práxis, e tem por objetivo também criticar as mesmas, tais como, por exemplo, as praticas das ciências e seus métodos. Visa também entender o que é a arte, as questões que tratam sobre o bem e o mal (ética), enfim...um “Conhece-te a ti mesmo” e um “conhece o mundo”.
Nasce do espanto e admiração de si e do mundo. Não seria uma posse da verdade, mas sua busca.

A partir do inventário do senso comum que se pode iniciar o processo crítico do próprio entendimento do mundo. O primeiro passo no exercício do filosofar é identificar os princípios do senso comum que dão sentido e razão de ser à nossa existência. O segundo passo desse exercício é produzir uma crítica sistemática da concepção fragmentária, ingênua e contraditória do mundo. O terceiro passo do filosofar é resultado do segundo: a construção de um entendimento coerente, orgânico e sistemático de compreender a realidade.

O modo de exercitar o saber filosófico em Sócrates continha duas partes: a primeira denominava-se “ironia”, que em grego possui o significado de “perguntar”, tinha por objetivo questionar o entendimento comum que os interlocutores de Sócrates tinham dos fenômenos, fatos, acontecimentos cotidianos, etc. Quando ele percebe que seus entendimentos de mundo eram frágeis ia para o segundo passo chamado “maiêutica”, que significava parto, ele dizia ter herdado isso de sua mãe que era parteira, porém ele auxiliava a dar a luz idéias verdadeiras, verdade essa que direcionaria a prática moral dos seres humanos.

Dialética Platônica significa retomada da maiêutica socrática, acrescentando a contraposição, em que as intuições vão sendo contrapostas até que se chegue a um ponto mais aproximado das essências ideais. Ele trata do mundo das idéias, ou seja, das essências, portanto do verdadeiro.

Aristóteles levou a filosofia a um maior exercício lógico. Procedia por meio do encadeamento de proposições lógicas, seu raciocínio dedutivo tentando assim chegar a verdade. Ele ia das considerações genéricas para as especificas, formulando as proposições universais assumidas como verdadeiras para que delas deduzisse outras proposições coerentes.

Santo Agostinho retoma na idade média parte da forma de filosofar da antiguidade grega. Para ele a verdade esta dentro de si mesmo, de sua alma e que coincidia com Deus. Sua obra Soliloquium trata de fazer diálogos consigo próprio.

Essas são algumas das informações dos de mais textos:
(OBS: não tratei resumidamente de todas as partes devido ao pouco tempo que tive disponível; Ficou também excluso o texto “Principais períodos históricos”).

Sócrates é condenado à morte por envenenamento (por ingestão de cicuta), acusado de corromper a juventude e negar os deuses da cidade. Teria na realidade perturbado com a ordem e poder social estabelecido que favorecia certos grupos e indivíduos que desejavam manter as coisas como estavam.
Guiava-se pelo principio de que nada sabe, e disso parte para o questionamento do que lhe era familiar.

Filosofia de vida seria um filosofar espontâneo de todos nós. Contudo a reflexão do filósofo tem exigências de rigor que vão além do que é habitualmente proposto pelo senso comum.

A filosofia seria radical por buscar explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir. A reflexão filosófica deve ser rigorosa, em método, linguagem, sistematização. A filosofia é globalizante no sentido de visar ao todo, possui uma função interdisciplinar estabelecendo elos entre as diversas formas do agir e pensar humanos.

Filosofia e ciência:

A ciência tende para a especialização enquanto a filosofia ainda visa o todo. A ciência adquire maior objetividade, devido as suas investigações e verificabilidade, que lhes permitem uniformidade de conclusões. Cientistas também muitas vezes se utilizam das questões filosóficas em seus estudos, ao tentar, por exemplo, entender o que é ciência, o que é método, qual sua validade, etc.
A filosofia pode fazer uma discussão moral sobre as implicações das ciências e seus resultados éticos, seus métodos, etc.

Formas de conhecer:

*Intuição:

É o ponto de partida do conhecimento, possibilidade de invenção, descoberta, grandes “saltos” no saber humano.
Intuição sensível: Conhecimento imediato dado pelos órgãos dos sentidos.
Intuição inventiva: Intuição do sábio, artista, cientista, quando criam novas hipóteses; também na vida diária, enfrentamos situações que exigem soluções inventivas, verdadeiras invenções súbitas.
Intuição intelectual: é a que se esforça por captar diretamente a essência do objeto.

*Conhecimento discursivo:

É o conhecimento que se dá por meio de conceitos. Opera por etapas, encadeamento de idéias, juízos e raciocínios que levam a determinada conclusão. Para isso a razão precisa abstrair (“isolar”, “separar de”). O fazemos, por exemplo, ao separarmos um elemento de uma representação.



A verdade

O falso e o verdadeiro não estão na coisa mesma, mas no juízo, no valor de verdade da afirmação, no qual se estabelece o vínculo entre sujeito e objeto. Há verdade ou não dependendo de como aparece para o sujeito que conhece. Por isso dizemos que algo é verdadeiro quando é o que parece ser.

Ceticismo e dogmatismo

Dogmatismo é a doutrina segundo a qual é possível atingir a certeza. Do ponto de vista religioso é a verdade fundamental e indiscutível de uma doutrina. No campo não religioso passa a designar as verdades não questionadas e inquestionáveis, a pessoa de posse da verdade fixa-se nela e abdica de continuar a busca. O mundo muda e os acontecimentos se sucedem e ele permanece petrificado nos conhecimentos dados de uma vez por todas.
Ceticismo significa “procura”, “investigação”, diz que a sabedoria não consiste em alcançar a verdade, mas somente em procurá-la. O cético tanto observa e tanto considera o que conclui, nos casos mais radicais, pela impossibilidade do conhecimento. Nas tendências moderadas orienta-se para a suspensão provisória de qualquer juízo ou admite uma forma relativa de conhecimento (relativismo), reconhecendo os limites para a apreensão da verdade.
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